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Provavelmente alguns leitores deste artigo não estarão familiarizados com a sigla ODS e muito menos com o seu significado. Não admira. A abordagem tradicional da SST tem maioritariamente adoptado uma prática muito fechada em si mesma, pouco global e demasiado técnica (nalguns casos) ou demasiado legislativa (noutros casos). Em geral e nas nossas sociedades ditas desenvolvidas o mundo do trabalho, as empresas e serviços, são vistas não como parte integrante de uma sociedade global, de um planeta que queremos transmitir aos nossos filhos, mas sim como peças de uma máquina de produzir em quantidade produtos cada vez mais voláteis e descartáveis, numa óptica em que a oferta é dominada pela ganância do lucro rápido e cego e em que a procura se rege pela tentação (tantas vezes subliminarmente imposta) do consumismo ostentatório e não menos cego. Nesta perspetiva o trabalhador é olhado não como um cidadão, mas como uma mera peça dessa máquina de produzir e ele próprio se transforma no senhor da sua “escravatura” ao assumir o papel do consumista desenfreado e compulsivo. Pelo meio vão-se arranjando uns “Dias Mundiais” de tudo e mais alguma coisa, durante os quais se lavam algumas consciências, se fazem umas proclamações tonitruantes mas desprovidas de qualquer empenho, e se assumem alguns pios compromissos que nunca saem do papel. E nos restantes 364 dias do ano tudo fica como dantes. Infelizmente na nossa área temos o exemplo do 28 de abril e da forma como tem sido assumido. E o que fica quando assenta a poeira que nos vão atirando para os olhos? Um planeta cada vez mais doente, cada vez mais exaurido de recursos, onde as desigualdades crescem e a dignidade humana é uma utopia. Na SST continuamos, maioritariamente, a buscar soluções técnicas para problemas tantas vezes humanos e sociais, e quando as coisas correm mal (e infelizmente correm mal tantas vezes) rapidamente procuramos culpados em vez de nos empenharmos seriamente na busca da raíz profunda do problema que muitas vezes se encontra fora do local de trabalho. E mesmo quando corajosamente se introduzem novos vectores e novas preocupações, como acontece com os riscos psicossociais, estes (e quem os investiga detecta e trabalha) são olhados de soslaio, pois “cheiram a enxofre”. A dimensão do “pessoal”, da esfera íntima, do eu (não confundir com o ego pois esse não pára de crescer em tantas pessoas), perde cada vez mais terreno numa sociedade onde deliberadamente se promove a confusão entre individualidade e egoísmo, entre liberdade individual e desrespeito pelos outros, entre SER e TER. Teima-se em não querer ver que não pode haver empresas “saudáveis” com trabalhadores “doentes” e vice-versa.
Mas felizmente há outras abordagens. Veja-se o caso da ONU, essa instituição tantas vezes esquecida e menosprezada mas que também tantas vezes tem sido a única voz a tentar dar voz (e condições de vida) a quem não a tem. E um exemplo bem claro disso têm sido as mais recentes crises humanitárias, e o papel esforçado, quase de voz a bradar (e a agir) no deserto, da ACNUR dirigida por António Guterres.

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