|
Amianto, abordando o tema
por Carla Joyce
Nota prévia:
Saliento desde já que, quando iniciei a pesquisa neste tema, de um modo geral (sem particularizar no tema do amianto nos locais de trabalho) deparei-me com diversas dificuldades na obtenção de informação. Efectivamente, a informação acessível e disponível sobre a temática do amianto em termos de ambiente, em geral, é quase inexistente.
Contudo, como resultado da pesquisa efectuada, apresento o artigo que desenvolvi, uma vez que penso que permite uma visão geral de vários aspectos e poderá ser considerado como “ponto de partida” para pesquisas mais aprofundadas sobre este tema, o que irei, precisamente, fazer a curto prazo: procurar com mais detalhe e em bibliotecas específicas, documentação técnica. Talvez num futuro breve possamos fazer um refrescamento a este tema, apresentando mais resultados.
Não sendo o artigo que apresento o resultado da minha expectativa inicial, entendo que poderá auxiliar muitos leitores no sentido de uma informação generalizada, partilhando as fontes consultadas e promovendo novas buscas e pesquisas por parte dos leitores.
1.INTRODUÇÃO
Com o presente artigo pretende-se abordar a temática dos riscos para a saúde decorrentes da exposição ao amianto numa perspectiva de Saúde Ambiental, não focando a particularidade do amianto nos locais de trabalho, área já apresentada em anteriores edições da revista “segurança” por especialistas na matéria.
O objectivo principal é abordar o tema de forma genérica, contribuindo com a partilha de um conjunto de informação e de referências documentais relevantes, disponíveis neste domínio.
2. Caracterização do Amianto
O asbesto (da palavra grega asbestos = incorruptível), também conhecido como amianto (do grego amíantos, puro, sem sujidade, sem mácula), é uma fibra mineral natural extraída de certas rochas. Trata-se de um material com grande flexibilidade e resistências tênsil, química, térmica e eléctrica muito elevadas e que além disso pode ser tecido (Wikipedia, 2007).
De acordo com Sardo et al (2004), o amianto é conhecido pelo “linho da montanha”, existindo relatos, na antiguidade, sobre a sua utilização no fabrico de tecidos. De acordo com a forma das suas fibras, o amianto pode ser classificado em dois grupos:
- grupo das anfíbolas: fibras em forma de agulha;
- grupo das serpentinas: fibras mais finas.
As fibras de amianto que foram mais utilizadas, até à sua proibição a partir de 1 de Janeiro de 2005 pela Directiva N.º 1999/77/CE, da Comissão, de 26 de Julho, foram a amosite e a crocidolite (ambas do grupo das anfíbolas) e o crisótilo (do grupo das serpentinas), uma vez que eram as fibras de amianto com maior interesse comercial.
De acordo com Macedo (in SIA, 2007), destacam-se as seguintes principais aplicações industriais do amianto:
- fibrocimento;
- têxtil;
- automotriz;
- eléctrica;
- plástica e tintas;
- prensados;
- química;
- aeroespacial;
- naval.
3. Onde podemos encontrar o Amianto?
Até 1994 o amianto foi utilizado de forma intensiva, sendo que nessa altura, através do Decreto-Lei nº 228/94, de 13 de Setembro, foi proibida a comercialização e a utilização de todos os tipos correntes de amianto, excepto o crisótilo (em relação a esta espécie de amianto foram estabelecidas 15 proibições).
Em 2005, através do Decreto-Lei n.º 101/2005, de 23 de Junho (que transpõe para a ordem jurídica interna a Directiva n.º 1999/77/CE, da Comissão, de 26 de Julho, relativa à limitação da colocação no mercado e da utilização de algumas substâncias perigosas, alterando o Decreto-Lei nº 264/98, de 19 de Agosto), foi então proibida, pela Comunidade Europeia, a utilização de qualquer variedade de amianto.
De acordo com Sardo et al (2004), actualmente, ainda podemos encontrar amianto em:
- fibrocimento (edifícios, pavimentos, etc.);
- placas de lusalite;
- isolamentos térmicos e acústicos;
- cabos e fitas de isolamento térmico;
- depósitos e canalizações;
- móveis, portas, armários, tampos de mesas, placas decorativas;
- argamassa, tintas e colas;
- filtros de ar, gases e líquidos;
- calços, pastilhas de travões e discos de embraiagem;
- electrodomésticos antigos tais como torradeiras, fogões, aquecedores, secadores de cabelo, etc.;
- têxteis.
Até ao conhecimento dos seus riscos, devido à sua abundância na natureza, ao seu baixo custo e, sobretudo, devido às suas qualidades (incombustível, resistente a altas temperaturas e a vários químicos, à humidade e a microrganismos, é um bom isolador térmico, acústico e eléctrico, é fácil de tecer, entre outras), foi largamente utilizado na indústria tendo sido denominado “rainha das fibras” (Sardo et al, 2004).
No entanto… a contínua investigação neste domínio trouxe alterações à área científica, no domínio dos efeitos para a saúde associados ao amianto.
4. O Amianto e a Saúde: que perigos?
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (2000) todas as formas de amianto são perigosas para a saúde quando as fibras de dimensão respirável são inaladas.
O perigo dos produtos que contêm amianto encontra-se dependente da respectiva capacidade de libertar fibras. Se as fibras de amianto estiverem fortemente ligadas a outra substância (como é o caso do fibrocimento) e não se libertarem, não representam perigo (AIPA, 2007). No entanto, em qualquer uma das situações, apenas através de um estudo quantitativo do número de fibras presentes na atmosfera em estudo, se pode avaliar correctamente a situação.
Os resultados obtidos serão depois comparados com um Valor Limite de Exposição (VLE), limiar abaixo do qual não existirá perigo, estatisticamente significativo, de exposição para a saúde às fibras de amianto em análise.
Contudo, apesar de todas as fibras de amianto poderem causar asbestose, doenças pleurais, cancro do pulmão e mesotelioma, nem todas têm o mesmo grau de perigosidade, pelo que o risco de aparecimento de doença depende do tipo de fibra, das suas dimensões, da concentração e do tempo de exposição (AIPA, 2007). As duas primeiras, segundo o mecanismo de patogenicidade, são classificadas como doenças fibróticas e são benignas. As restantes são doenças neoplásicas e são malignas (Sardo et al, 2004).
De um modo geral só são atingidas por estas doenças as pessoas que se encontram ou que estiveram expostas a níveis elevados de amianto durante um longo período de tempo; para as outras pessoas os riscos são significativamente baixos. Existe, porém, outra possível forma de contacto com o amianto, através da ingestão de água. Contudo, de acordo com Sardo et al (2004), ainda não foi possível provar que existe qualquer perigo para a saúde decorrente da ingestão de fibras de amianto.
Em seguida apresenta-se um quadro resumo das principais patologias associadas à exposição ao amianto, com breve descrição dos principais sintomas (adaptado de Sardo et al, 2004):
5. Vias de Exposição ao Amianto
Ao longo da nossa vida é muito provável que contactemos, uma ou outra vez, com o amianto. No entanto, a probabilidade de daí resultar algum risco real é mínima.
Uma vez que o risco resulta de uma exposição prolongada, estão mais expostos os trabalhadores, os seus familiares (através do contacto com as fibras que os trabalhadores transportam, por exemplo, nas roupas do trabalho) e comunidades vizinhas das indústrias que utilizam amianto como matéria-prima, nomeadamente as indústrias de fibrocimento, têxteis, de material de plástico, automobilística, etc.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS, 2007), existem numerosos relatos de trabalhadores que estiveram expostos durante anos às fibras de asbestos e que, mais tarde, vieram a desenvolver doenças relacionadas com essa exposição problemas respiratórios, cancro do pulmão...) da qual resultou a morte de milhares de pessoas.
Actualmente, como resultado de uma forte política de prevenção da exposição a este contaminante, o nível de exposição e, por conseguinte, os riscos associados, são cada vez menores. Não nos podemos, contudo, esquecer que muitos dos produtos anteriormente fabricados, subsistem ainda com esta matéria-prima.
De acordo com a bibliografia disponível, as vias de exposição ao amianto são:
• Cutânea e Digestiva:
Deste tipo de exposições, resultam somente lesões benignas localizadas, em forma de nódulos, designados por “sementes de asbesto”. Contudo, uma vez que ainda não existe consenso científico nesta matéria, continua a ser estudada a associação da contaminação por amianto através da exposição cutânea ou digestiva, já que existem estudos que referem a associação entre a exposição a asbestos e o aumento do cancro do cólon, outros há que consideram que essa exposição não se traduz num acréscimo na incidência desta patologia. A ingestão de fibras de amianto pode ocorrer directamente através de alimentos e águas contaminadas (sobretudo as que correm através de formações rochosas).
Esta exposição poderá ser facilmente evitada tomando medidas de precaução simples, como o uso de luvas no contacto com os materiais que contenham este tipo de fibras.
• Respiratória (partículas inaláveis):
De acordo com os elementos científicos actualmente disponíveis, esta é a principal via responsável pelos efeitos graves para a saúde associados à exposição ao amianto.
6. O Amianto na Sociedade
As fibras de amianto podem ser encontradas em vários locais no dia a dia, em casa, na escola, em fábricas, em escritórios e lojas e em quintas, por exemplo.
Vejamos alguns exemplos em casa, de acordo com informação
disponibilizada pela Environmental Protection Agency (EPA, Estados Unidos) (www.epa.gov/asbestos):
Em casa:
Em habitações mais antigas:
- alguns pavimentos são feitos à base de fibrocimento;
- o amianto pode estar presente em algumas tintas com textura, em remendos nas paredes e em juntas;
- produtos mais antigos, tais como absorventes e coberturas para os fogões, podem ter alguns compostos de amianto;
- as paredes e os soalhos em torno das lareiras ou de fornos de lenha podem estar protegidos com folhas de amianto;
- o amianto é encontrado em alguns revestimentos de vinil;
- as condutas de água quente e de vapor podem ser revestidas com material que contém amianto ou ser cobertas com material constituído por amianto;
- alguns isolantes podem ser constituídos por amianto.
7. Amianto: que cuidados para o evitar?
A legislação estipula um sem número de restrições relativamente à exposição ao amianto no trabalho, definindo valores limite de exposição permitidos.
Para quem ainda lida com o amianto são imprescindíveis cuidados básicos como o uso de luvas, máscara e roupas adequadas.
Estas não devem sair do local de trabalho para evitar o seu transporte para outros locais.
É necessário um cuidado especial nas demolições de edifícios antigos e na remoção do fibrocimento.
Estas operações podem levar à contaminação do ar com fibras.
Nestes casos devem contratar-se empresas especializadas que possuem o equipamento necessário para a execução do trabalho em condições de segurança.
Para diminuir os riscos ao máximo, sempre que se suspeite que um produto contém amianto, este deve ser tratado com tanta precaução como se se tivesse a certeza.
Não esquecer:
- normalmente, a melhor solução é não intervir no material que contém amianto e que se encontra em boas condições de conservação;
- de um modo geral, o material que se encontra em boas condições, não liberta fibras de amianto, pelo que, desde que as fibras não se soltem, não existe perigo de contaminação por inalação.
8. Referências Bibliográficas
- Enciclopédia on-line - http://pt.wikipedia.org/wiki/Asbesto
- Sardo, F. et al – Amianto. Porto: FFUP,2004-http://www.ff.up.pt/toxicologia/monografias/ano0304/Amianto/index.htm
- Site da AIPA - Associação das Industrias de Produtos de Amianto Crisótilo - http://www.aipa.pt
- Site da Environmental Protection Agency, dos Estados Unidos da América (EPA) -http://www.epa.gov/asbestos
- Site da Organização Mundial de Saúde (OMS) - http://www.who.int/en/
- Site da Sociedade de Informação do Amianto, Lda. - http://www.sinfoamianto.pt/
- Tox Town - http://toxtown.nlm.nih.gov/town/main.html
- Site interactivo com informações diversas sobre agentes tóxicos na cidade
- WHO Regional Office for Europe - Asbestos. Copenhagen, Denmark, 2000 - http://www.euro.who.int/document/aiq/6_2_asbestos.pdf
|