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Em várias instalações das industrias de fosfatos, desde a mina à produção de ácido fosfórico e bacia de resíduos, foram efectuadas medições da radiação externa e determinações das concentrações de radionuclidos contidos nos materiais fosfatados. A avaliação do risco radiológico associado aos locais de trabalho é aqui apresentada de forma preliminar e este risco é assinalado juntamente com o risco de exposição a poeiras e gases nas várias etapas da transformação e uso de fosfatos.

Produção de fosfatos
A indústria de fosfatos tem crescido continuamente desde o início do seculo XX e a nível mundial produz actualmente cerca de 6,5 Mton por ano. Deve-se aos fertilizantes em geral, e aos fertilizantes fosfatados em particular, o aumento da produção agrícola global a qual, ainda que com dificuldades, tem possibilitado a alimentação de uma população humana em crescimento exponencial [1]. Não é previsível que as necessidades mundiais de fosfato decresçam no futuro próximo, pelo que a extracção, transformação e utilização de materiais fosfatados vai certamente prosseguir.
Os minérios de fosfato de origem sedimentar (fosforites), cujos grandes depósitos se encontram no Sahara Ocidental, América do Norte e China, contêm, além dos elementos fósforo (P) e cálcio (Ca) necessários ao crescimento das plantas, muitos elementos metálicos indesejados e que pelo uso continuado dos fertilizantes se tornam contaminantes dos solos agrícolas e dos produtos vegetais. É o caso do cádmio (Cd), mercúrio (Hg), arsénico (As) e uranio (U).
A Europa Ocidental abastece-se de fosfatos em Marrocos e noutros países de África. Os fosfatos de Marrocos têm elevada radioactividade pois contêm o urânio e seus descendentes. A manipulação e transformação industrial destes fosfatos podem causar a exposição ocupacional a radiações ionizantes, com as componentes de irradiação externa, inalação e ingestão de poeiras, e inalação de gás radioactivo. Além disso, a produção de ácido fosfórico, que se obtém através da reacção do ácido sulfúrico com a fosforite, origina um resíduo sólido de sulfato de cálcio fosfatado, designado fosfogesso, que contém parte da radioactividade inicialmente presente na fosforite. Nos países produtores de adubos fosfatados, as pilhas de fosfogesso acumuladas como resultado da actividade industrial do passado ainda não encontraram aplicação ou destino satisfatório apesar de várias tentativas nesse sentido [2,3].
A evolução recente da legislação ambiental e de segurança ocupacional relativa a radiações ionizantes levou à inclusão das indústrias de fosfatos no sector designado por indústrias NORM (Naturally occurring radioactive materials). Estas indústrias requerem uma atenção aos riscos de exposição a radiações que anteriormente não se lhes dispensava (Directiva EU 59/2013). É, pois, necessário reavaliar os riscos ocupacionais e actualizar os procedimentos de higiene e segurança nas indústrias que envolvem fosfatos.

O circuito da rocha fosfatada e a exposição ocupacional
A exploração de fosfatos no Oeste da região Sahariana faz-se a céu aberto. A camada rica em de minério de fosfato encontra-se geralmente entre 20 e 40 m abaixo da superfície do Sahara e a extracção de rocha fosfatada efectua-se a céu aberto com escavadeiras de grandes dimensões (Figura 1). A rocha extraída tem a consistência de um arenito e, antes de ser enviada para as instalações de indústria química, é desagregada e peneirada para remover pedras e elementos de maiores dimensões. Esta rocha de origem sedimentar é chamada de fosforite, e constitui a matéria-prima para a produção industrial de ácido fosfórico e de fertilizantes agrícolas fosfatados.
Numa mina de fosfatos a céu aberto que visitámos no Oeste do Sahara, a taxa de dose de radiação ambiente sobre a camada de fosfatos foi de 40 a 65 nSv/h (0,040-0,065 µSv/h), o que contrasta com a taxa de dose sobre o solo arenoso da região com valores geralmente inferiores a 20 nSv/h (0.020 µSv/h) (Quadro 1). Para os operadores das máquinas de escavação, operadores das passadeiras rolantes que elevam o minério para os locais de carga, e condutores dos camiões que transportam o minério, a dose de radiação ambiente é, pois, cerca de três vezes superior à dose do fundo radioactivo natural não modificado. Nalguns locais a camada de fosfatos está imersa no lençol freático e a água impede a formação de poeiras, funcionando como barreira de protecção parcial contra inalação de poeiras.

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